Dia Mundial do Pâncreas: os sinais de alarme e desafios do cancro pancreático
No Dia Mundial do Cancro do Pâncreas, assinalado a 20 de novembro de 2025, a atenção volta-se para uma das neoplasias mais agressivas e com menor taxa de sobrevivência. Para marcar a data, Gil Gonçalves, presidente da recém-criada Associação Portuguesa do Pâncreas, destaca em entrevista à News Farma a importância da consciencialização para esta patologia. Leia a entrevista.
News Farma NF: Qual é a importância do Dia Mundial do Pâncreas e o que pretende que esta data represente para a população e para os profissionais de saúde?
Gil Gonçalves (GG): O Dia Mundial do Cancro do Pâncreas é uma iniciativa global crucial devido à natureza particularmente desafiadora desta entidade clínica.
O cancro do pâncreas (CP) é um dos tipos de cancro com a taxa de sobrevivência mais baixa entre todos os principais, sendo frequentemente diagnosticado em estádios avançados. Projeções indicam que, se a tendência atual se mantiver, poderá tornar-se em 10 anos a segunda principal causa de morte por cancro em muitas regiões.
Nesse sentido, a data tem como principal importância e objetivos aumentar a conscientização, chamando a atenção global para o CP, que tem sido considerado um cancro "negligenciado" devido à falta de conscientização e financiamento de pesquisa.
Promover o diagnóstico precoce. Este é o foco mais crítico. Como não há um rastreio padrão e os sintomas iniciais são vagos ou inexistentes, a data visa educar a população sobre os sintomas de alarme e os fatores de risco. O diagnóstico precoce é fundamental para aumentar as chances de tratamento curativo e a sobrevida.
Incentivar a pesquisa, exigindo maior investimento em investigação científica, visando novas formas de diagnóstico precoce (como testes de rastreio para populações de alto risco) e tratamentos mais eficazes.
Melhorar o suporte ao paciente destacando a necessidade de melhores condições de cuidado, apoio e acesso a ensaios clínicos e cuidados para os pacientes e suas famílias.
Para os profissionais, pretende ser, um apelo para melhorias na prática clínica e na política de saúde.
Maior suspeição clínica, alertando os médicos e outros profissionais para que tenham um índice de suspeita mais elevado para o CP, mesmo quando os sintomas são vagos, especialmente em doentes com fatores de risco.
Investimento em investigação, fazendo pressão para que haja um maior financiamento dedicado à investigação, uma vez que o nível atual é desproporcional à sua alta mortalidade.
Otimização do diagnóstico e tratamento, promovendo a discussão e a implementação de melhores estratégias nacionais para o CP, incluindo o acesso rápido a centros especializados para diagnóstico e tratamento cirúrgico.
É um "Dia de Ação, um Mundo de Diferença", com o objetivo final de salvar vidas, impulsionando a deteção precoce e melhorando as taxas de sobrevivência desta doença devastadora.
NF: Considerando que o carcinoma do pâncreas é uma neoplasia que, apesar de uma incidência relativamente baixa, apresenta uma das taxas de mortalidade mais elevadas, quais são os sinais e sintomas de alarme primários que devem ser prioritariamente reconhecidos pela população em geral e pela comunidade médica para motivar uma avaliação médica atempada?
GG: Dada a natureza agressiva e a dificuldade de diagnóstico precoce do (CP), o reconhecimento rápido de sinais e sintomas de alarme é crucial para tentar um tratamento potencialmente curativo.
A dificuldade reside no facto de os sintomas iniciais serem frequentemente vagos e inespecíficos. No entanto, existem sinais primários que devem motivar uma avaliação médica urgente, tanto por parte da população como dos profissionais de saúde.
Estes sinais podem ser agrupados em manifestações sistémicas, digestivas e oclusivas:
Icterícia (coloração amarelada);
Dor abdominal e/ou dor nas costas (dorsalgia);
Perda de peso inexplicada e anorexia;
Diabetes mellitus de início recente ou agravamento inexplicável;
Sintomas digestivos diversos (exemplo: fezes descoloradas/claras, esteatorreia, náuseas e vómitos).
Para os profissionais de saúde, é essencial manter um alto índice de suspeição perante estes quadros:
Diagnóstico de exclusão: quando um doente apresenta a combinação de perda de peso e dor abdominal inexplicável, o CP deve ser uma das primeiras hipóteses a excluir, mesmo que as análises iniciais pareçam normais.
Investigação de icterícia indolor: este deve ser um sinal de investigação urgente. a ecografia abdominal é o primeiro passo, mas é essencial prosseguir rapidamente para exames mais sensíveis (TC ou RM abdominal/pélvica com protocolo pancreático) se a suspeita clínica persistir.
Diabetes e pâncreas: a comunidade médica deve estar atenta à "nova diabetes" em doentes mais velhos e referenciá-los para rastreio ou exames de imagem se houver outros sintomas suspeitos.
O objetivo da avaliação atempada é identificar o pequeno grupo de tumores que ainda podem ser submetidos a resseção cirúrgica, que é, atualmente, a única oportunidade de cura.
NF: Na sua análise, quais são os fatores patofisiológicos e clínicos que convergem para a elevada letalidade associada a esta patologia oncológica? Adicionalmente, quais os motivos que justificam a persistência de um diagnóstico em estádios avançados da doença?
GG: O CP é uma doença intrinsecamente agressiva, muitas vezes resistente ao tratamento, devido ao padrão de invasão precoce, metastização rápida e à resistência intrínseca aos tratamentos.
A principal razão pela qual a maioria dos doentes (cerca de 75%) é diagnosticada em estadio avançado (localmente avançado ou metastático), impedindo a cirurgia curativa, consiste em:
Ausência de sintomas precoces específicos;
Ausência de ferramentas de rastreio eficazes para a população geral;
Dificuldade na Imagiologia em estadios iniciais.
A convergência da biologia ultra-agressiva do tumor com a janela de oportunidade diagnóstica muito estreita resulta na elevada letalidade, onde a maioria dos doentes perde a oportunidade de ressecção cirúrgica (a única hipótese de cura) devido à invasão local e/ou metástases detetadas no momento do diagnóstico.
A mitigação da mortalidade associada ao CP em Portugal exige uma abordagem multifacetada e urgente, focada na maximização do diagnóstico precoce. Dada a ausência de um rastreio eficaz para a população geral, as estratégias prioritárias devem concentrar-se em grupos de alto risco, inovação diagnóstica e melhoria dos cuidados primários.
NF: No contexto da saúde pública nacional, que estratégias de rastreio, metodologias diagnósticas inovadoras ou intervenções a nível primário e secundário considera urgentes e prioritárias para maximizar a taxa de diagnóstico precoce e, consequentemente, mitigar a mortalidade associada ao cancro do pâncreas em Portugal?
GG: Através de rastreio em grupos de alto risco (prevenção secundária), com a implementação de programas de vigilância familiar e da vigilância de lesões pré-malignas (quistos pancreáticos).
Metodologias diagnósticas inovadoras e biomarcadores, como biomarcadores de deteção precoce (líquida biópsia) e melhoria da imagiologia de primeira linha.
Intervenções a nível primário e secundário.
A conjugação destas estratégias - vigilância ativa em grupos de alto risco, investimento em inovação diagnóstica (biomarcadores) e melhoria da suspeição e referenciação rápida nos cuidados primários - representa o caminho mais eficaz para reduzir o diagnóstico em estádio metastático e, consequentemente, mitigar a mortalidade por cancro do pâncreas em Portugal.